Na Hora Certa – Documentário Curto sobre Parto Humanizado

“…Uma mulher chegou praticamente com a dilatação completa no hospital e uma enfermeira se aproximou de nós e disse:
– Doutor tem um bebê nascendo aqui na frente, na sala de exames. Então eu abri bem a primeira porta e no canto da sala tinha uma paciente acocorada fazendo força. E eu entrei abruptamente na sala gritando com a paciente: – O que tu tá fazendo no chão? Porque tu tá jogada aí no canto? Te levanta daí! E essa paciente me olhou como se eu fosse feito de vidro e eu fiquei impactado com aquilo. Seu filho vai nascer no chão que absurdo é esse? Te levanta daí,, deita na mesa para eu poder te examinar, para eu poder te atender.

Novamente ficou em absoluto silêncio, ela não disse uma palavra sequer. Nesse momento a enfermeira começou a tentar abrir um par de luvas, mas ela fez mais uma força e saiu a cabeça e logo depois saiu o bebê.

E eu pela primeira vez atendi um recém-nascido com as mãos desnudas. E pela primeira vez eu consegui sentir a sensação inebriante, inesquecível de sentir o corpo úmido e quente de um bebê recém-nascido absolutamente inspirado pela chama da vida. E eu disse: – Agora tu vai se levantar daí, vai deitar nessa maca que quero ver se seu períneo tem alguma laceração. E quando ela deitou na mesa e eu examinei, não tinha nenhuma laceração, não tinha nada. E eu ainda tive a delicadeza de dizer: – Tu tem muita sorte mesmo, tem muita sorte de não ter te arrebentado toda. E da sala de exames eu ainda consegui olhar para ela no corredor e ela deitadinha na maca olhando pra mim em silêncio só me observando. E foi embora, nunca mais a vi. E tinha uma funcionária limpando o chão e ela me viu, olhou pra mim e disse: – Puxa Doutor que parto rápido, né?

E ela olhou pra mim e disse do alto da sua inocência: – Já pensou o Doutor se o senhor não chega a tempo?
E quando ela disse aquilo é como se o chão embaixo de mim tivesse se aberto e eu tivesse descido diretamente ao inverno!

Porque quando ela disse aquilo eu me dei conta de que se eu não tivesse chegado o tempo, aquele poderia ter sido um parto maravilhoso!

Porque tudo que eu fiz no atendimento à mulher, tudo! Estava errado!

Desde o primeiro momento que eu botei os pés naquela sala, estava repleto de preconceito, de ignorância e má prática.
Desde a primeira palavra que eu disse,
Desde os xingamentos que eu disse,
Desde o fato de eu não ter me apresentado,
Desde o fato de não ter sido carinhoso com ela,
Desde o fato de eu ter tentado fazer uma episiotomia sem o consentimento dela,
Desde o fato de eu ter xingado ela porque ela estava de cócoras que é a posição mais adequada para uma mulher ter o seu filho,
Desde o fato de eu ter tracionado violentamente o cordão para que a placenta saísse o mais rápido possível.

Tudo isso, tudo isso…

O corte prematuro do cordão umbilical,
A entrega para que esse bebê fosse levado e afastado da mãe,

Tudo errado, tudo equivocado!

Eu me lembro sempre aquele olhar daquela mulher, naquela maca olhando pra mim. E a impressão que eu tenho agora, me lembrando da situação é que ela estava dizendo assim: – Pai, perdoai ele não sabe o que está fazendo.”

“…Eu acho que no momento que tu tem um parto humanizado que você é colado realmente em contato com seu filho, ele é teu, entendeu?
Como é que eu não fui capaz de…ele esta aqui dentro, eu não defino quando que ele vai se mexer, então como é que vou definir quando ele vai nascer? Isso eu não vou definir, quem vai definir isso é ele.
Eu acho que pra mim, como mãe, entender que quando ele nascer, ele vai ser ser independente, que eu vou amar muito, como já amo.
Mas ele vai ter a vida del, e eu acho isso muito importante também!”

“…Puxa vida! Que prepotência de quem tá aqui fora, achar que pode saber mais do que ela que lutou os nove meses pra se formar sozinha para se fazer sozinha, que vai ser um momento dela querer sair. Aí ela faz tudo isso pra se preparar para vir ao mundo, aí as pessoas se dão o direito de pegar e cortar a barriga e tirar ela dormindo de dentro da barriga.
Se eu fosse esse bebê eu diria: – Poxa! Eu que queria tanto chegar o mundo, porque achei que era legal, estão me sacaneando, né?”

“…Sempre achei estranho essa questão da cesárea, eu nasci de cesárea e eu sempre digo para as pessoas que eu fui nascida.
A minha mãe escolheu da data que eu iria nascer, que era conveniente pra ela, em um horário que meu pai podia sair do trabalho e ir lá e aí tá, me nasceram. Desde pequena eu sempre achei isso muito estranho e queria que meu filho escolhesse a hora que ele queria nascer.”

“…Parto Humanizado é uma atitude, é basicamente uma atitude, não é um protocolo, não é um método, não é uma série de rotinas, nada disso. Portanto, a mulher ela é a protagonista, ela não é subsidiária, ela não está em segundo plano, ela não é alguém que a gente informa as coisas que nós já decidimos…”

“Acho que esse discurso do parto humanizado está muito imbuído…se usa muito a palavra empoderamento, assim quase toca o feminismo.
Se fala muito do empoderamento da mulher, do protagonismo da mulher nesse momento.”

“É para muitas mulheres um sonho pra outras não. Eu tenho alunas que falam, eu quero cesárea. e também é acolhida. Não é porque ela quer uma cesárea que acabou o mundo, de forma alguma. É muito difícil também, num espaço onde todo mundo busca o parto, uma mulher chegar e falar…Eu quero cesárea. É tão empoderador quando falar…Eu quero viver o meu parto.”

“…A paciente deve ter o máximo de informação, o máximo de suporte e o máximo de empoderamento e apoderamento do processo para que ela tome as decisões que ela ache mais corretas.”

” …Por eu acompanhar também partos domiciliares e não só hospitalar, as pessoas dizem: – Mas tu não têm medo que aconteça alguma coisa?

Não, porque eu sei que essa mulher se encaminhou para esse parto, ela estudou, ela se cercou de uma equipe que ela confia, ela tá sabendo que ela é capaz!

Nessa questão toda, a Doula prepara a mulher para que ela tenha autonomia, ela prepara a mulher para que ela tenha essa capacidade.”

“A Doula a gente considera a profissão mais antiga, sempre teve esse papel, da mulher que estava presente, que provavelmente já tinha passado por isso, por essa experiência, conhecia essa experiência e pôde então auxiliar essa mulher e vai trazer o conforto físico emocional.”

“Ajudando com que ela fique mais tranquila, mais receptiva e mais aberta para esse processo do parto. Eu acredito que tem que haver um preparo mental, emocional, quer dizer espiritual para algumas ou energético, não importa.
Trazer um foco, um equilíbrio, um desprendimento para esse novo. E o meu processo, a minha missão como Doula é ajudar a transformar esse momento na vida das mulheres de uma forma mais suave, mais amena e transformadora.”

“Muitos discursos vão minando e despertando medos, muitos discursos. Porque o nascimento assim como a morte é um assunto que diz respeito a todos, então todos têm uma parte a oferecer na boa intenção.”

“Mas hoje a nossa sociedade tem muito medo do parto, então as doulas tem o conhecimento, uma capacitação de entender esse processo como natural, fisiológico.
Por isso que muitas vezes é uma pessoa que vai ajudar nesse processo, mas ela não substitui o familiar, um amigo, o companheiro.”

“Mas para aquela mulher que ainda…não vou dizer que não seja comum…que tem medo, que não baseie suas escolhas em medo, vá atrás, vá se informar. Você vai ser um modelo para o teu filho o resto da vida.”

“O estabelecimento de vínculo é algo que me parece absolutamente inquestionável no bom resultado de um nascimento.
A gente vai ver a barriga, vai pedir exames de rotina, mas fundamentalmente tentar conversar com o paciente, estabelecer um vínculo afetivo para que elas possam ter confiança no nosso trabalho, para que elas possam no momento do parto dizer assim: – Eu não preciso me preocupar com os profissionais que estão comigo, porque eu confio neles. Então eu posso relaxar e entrar tranquilamente nesse estado alterado de consciência, porque eu me sinto amparada pelo ambiente onde eu estou.”

“Sempre em cada parto eu ainda me emociono, cada parto me toca e cada parto eu acho que é uma conquista, uma vitória daquela mulher que eu conheço a história dela individual, as dificuldades, as facilidades. Cada mulher que consegue um parto é uma forma que eu me gratifico e me realizo por ter ajudado.”

“Eu quero que esteja ele, os nossos dois gatos, a nossa Doula e a nossa primeira enfermeira.”

“Quero ser a primeira pessoa a ver, quero ver ela saindo, nos dando essa alegria que a gente tanto espera.”

“Nossa Doula, ela disse uma coisa muito importante pra gente…Que é a inauguração da nossa família, que a gente tem consciência de quem é a nossa família e mais ela que vai vir agora.”

Documentário sobre parto humanizado produzido para a cadeira de Projeto Experimental de TV do Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS.

Direção: Douglas Roehrs
Assistente de direção: Jéssica Laine Andrade
Reportagem/entrevista: Carolina Guterres, Jéssica Laine Andrade e Pamela Floriano
Edição: Tiago Medeiros
Câmera: Bruna Machado, Douglas Roehrs, Jéssica Laine Andrade, Romulo Fernandes e Tiago Medeiros
Produção: Jéssica Laine Andrade, Douglas Roehrs e Pamela Floriano
Apoio à produção: Diego Amaral e Julia Alves
Pesquisa de trilha sonora: Romulo Fernandes
Trilha sonora: Cuddle Formation – Lullaby for twenty somethings (Johnny Ripper Remix), Surak – Lullaby, Josn Woodward – California Lullaby (instrumental verrino), Maps Transit – Lullaby for Anya, Podington Bear – Lullaby e Mobster – Lullaby
Equipe técnica: Paulo Laurindo
Agradecimentos: Luz Materna, Parto Alegre e Kelly Lopes Soares
Orientação: Cláudio Mércio e Eduardo Wannmacher
Coordenação de Jornalismo: Fábian Chelkanoff Thier
Direção da Famecos: João Guilherme Barone